domingo, 9 de agosto de 2009

O Céu está à venda.



"Crianças! Aceitem Jesus Cristo como Seu único Senhor e Salvador e levem de graça um PlayStation 3!"

Absurdo? O absurdo tem muitas faces. Se você só o enxerga quando ele vem em sua forma mais grosseira e evidente, mas não quando vem travestido das inúmeras sutilezas e dos engodos do Inimigo, talvez precise reavaliar suas concepções cristãs. Se promessas de milagres financeiros e proteção contra os tempos de crise são os chamarizes da sua fé, se o seu chamado é a prosperidade material, se você aplaude tal como se estivesse em um show (de horrores) quando o pastor promete carro 0km e esse ou aqueloutro bem, a diferença entre você e o garoto do PlayStation 3 talvez seja que ele é mais esperto ao pegar um "prêmio" muito bem determinado, e antes de você!

"Ah, mas a pessoa começa a ir à igreja por causa de seus problemas e dificuldades, e lá começa a ser tratada". Verdade, tal como para uma criança talvez seja o fim do mundo não poder ter um videogame de última geração em um país de primeiro mundo, mas ainda assim soa um absurdo o chamariz da Igreja Batista de Landover, não? Além disso, nada impede que o garoto, ao ter aceitado Jesus como o único Senhor e Salvador por causa de um videogame, também enxergue, com o tempo, a verdade e se converta verdadeiramente. Mas o cerne da questão é: nem por isso a intenção inicial do garoto estaria adequada, e nem por isso o chamariz da igreja foi o correto.

É óbvio que é muito mais fácil alguém procurar uma igreja se está com uma vida infeliz e problemática do que se estiver com uma vida aparentemente maravilhosa, mas é injustificável que os chamados sejam pautados no prosperismo material ou no medo do Inferno. Não se pode condenar um "alma perdida" por inicialmente ter essa concepção errada (e nem acreditar que ele permanecerá para sempre com tal concepção); mas não se tem visto um esforço para se mudar essa maneira de pensar, pelo contrário, apostando-se nas fraquezas humanas, ensina-se uma antimensagem bíblica (a verdade é que ela leva mais desesperados para a igreja, e, consequentemente, mais grana para os nossos ilibadíssimos e queridos pastores de hoje...).

Veja que não estou dizendo que em hipótese alguma uma pessoa possa pedir bênçãos em áreas financeiras, estou a falar do chamado de tal pessoa, do motivo que se sobressai aos demais, do ponto inicial e do fator equilíbrio que deve permear a fé e o foco espiritual de alguém. Não fosse assim, cairíamos no prosperismo, e o problema dessa concepção prosperista ou baseada no medo do Inferno é a descaracterização da identidade de Deus. É o mundo se infiltrando na Igreja de maneira tão sorrateira e perspicaz, que a maioria dos crentes de hoje já não enxerga se tratar de uma maneira de pensar muito mais mundana do que espiritual. Hoje ainda se pode constatar isso porque ainda temos parâmetros de honestidade e de critério na passagem do Evangelho, mas e daqui décadas, quando se perder o cabresto? A deturpação da Igreja é uma profecia bíblica, e, infelizmente, o "crente" só pensa na Igreja de hoje, e não na Igreja de amanhã. Ninguém quer conter hoje o que daqui alguns anos pode contribuir para uma degradação maior. O crente de hoje, no que tange à não leitura da Bíblia, é só um católico que não crê em santos e em imagens, mas em todo o resto pensa igualmente pequeno (porque é pequeno aquele que não conhece a própria fé), e talvez goste mais ainda de dinheiro.

Foi-se o tempo em que a força motriz da dedicação cristã era o amor à Verdade e ao desejo incondicional de conhecer a Deus só pela simples e pura vontade de sentir Sua presença e de prestar um louvor gratuito a este Infinito Senhor do Universo. Até prega-se o louvor ou até se louva liturgicamente, mas a ladainha da "nata" das igrejas de hoje preponderantemente é o que Deus pode nos dar de bom por aqui (e não aquilo que edifica o espírito), nessa eterna barganha apóstata que impera ao pregar uma "felicidade aziaga" e um "desapego apegado" às coisas mundanas.

Aceitar Jesus deve implicar na mudança de todas as concepções iniciais que sejam incorrespondentes com o Evangelho, e pudera haver menos cristãos egoisticamente deturpados pela falsa lógica prosperista e mais cristãos apaixonados e evangelistas! Mas não, não! Os cristãos que oferecem o que têm sem desejar bens materiais em troca (e, de quebra, espirituais) são chamados de trouxas nos meios televisivos por pastores como Silas Malafaia! O cristão de hoje não tem sequer o direito de buscar se aproximar do ideal de simplicidade e de autoentrega de Jesus. Jesus entregou a própria vida (algo muito mais importante que dinheiro) sem desejar qualquer coisa que fosse em troca, e nós (seres humanos) damos algo infinitamente inferior, porquanto também somos seres inferiores, ansiando comprar o mundo e os céus? Acho que tem algo errado.

Onde está a verdade pela verdade? O amor pelo amor? Por que tem que ser a verdade pela consequência negativa que a sua não aceitação gera (Inferno) ? Por que o amor para colher prosperidade material? Se vamos buscar algo que Deus possa nos dar (e não buscar a Deus só porque Ele é bom, o que eu entendo que seja realmente difícil), por que não os elementos essencialmente espirituais como a temperança, a paz, a caridade, o gozo etc? Por que valer-se de deturpações grosseiras sobre a Párabola do Semeador para dizer que quem dá dinheiro deve querer dinheiro? Por que pastores como Malafaia dão a entender que o cristão deve ser um poço sem fundo de ambições monetárias e que não sê-lo é uma hipocrisia? Sim, pois se alguém é rico e dá de coração sem ansiar enriquecer mais, diga-me, é hipócrita? E se enriquecer mais, e, por isso, passar a dar mais ofertas e um dízimo maior, deve querer ser ainda mais rico? E sendo mais rico, isso não tem fim? Sempre dando mais dinheiro para querer mais dinheiro em forma de bênção, nunca podendo dizer "para mim já basta."? Ora, isso é antibíblico, é anticristo!

É concebível e necessário buscar a paz em Deus, claro. Não somos perfeitos ao ponto de efetuarmos uma autoentrega perfeita tal como Jesus, sem querer nada em troca, mas a paz é algo essencialmente espiritual, e não material, e é algo que vem como consequência lógica de se seguir a verdade. Eu busco a verdade porque ela é a verdade; porque buscar a mentira é viver em mentira. E você, busca-a por quê? Pelo que pode ter ou pelo que pode ser? Porque é prazeroso estar com Deus ou porque é conveniente estar com Deus? Pense nisso.


P.S. Não sei se a imagem é verdadeira ou se é uma sátira ao Protestantismo. O fato é que não importa; é algo apenas ilustrativo e exemplificativo, a ideia é ser mesmo absurdo.