quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Discorrendo sobre a tristeza...

Em um mundo onde há tanto sofrimento é desnecessária qualquer espécie de apologia à tristeza. A felicidade e a alegria exigem incentivos e mantenimentos, mas a tristeza, para existir, só precisa de um coração machucado. Quem nunca se machucou ou nunca se machucará? Quem pode ignorar a importância da tristeza? Afinal, nos momentos tristes nos tornamos muito mais propensos a um processo de reflexão e de autodescoberta do que nos momentos de felicidade. Não quero trazer ideiais "novaerinos" de complemento de forças dualísticas, tampouco dizer que as pessoas devem se entregar à tristeza. Digo, porém, que o homem que nunca conheceu a tristeza (se fosse possível) foi o homem que jamais pôde compreender a imensidão da felicidade, especialmente a felicidade em Deus.

O cristão que se entristecer não precisa e nem deve se achar distante de Deus. O mal não pode edificar diretamente, mas a tristeza pode, então como ela deve ser necessariamente um mal? Devemos pensar é no porquê de estarmos tristes e com que intensidade estamos tristes, a questão também é, principalmente, se somos tristes ou se estamos tristes. Deve-se partir do princípio de que nem tudo o que é desagradável é ruim ou mau. Deve-se entender que é a tristeza que nos remete à esperança de que Deus pode nos alegrar! Alegrar como? Através da consolação. Na segunda epístola de Paulo aos Coríntios, apesar de o cerne da carta se tratar da apresentação pessoal de suas credenciais diante do conservadorismo rabínico, vemos Paulo falar muito sobre Deus como Consolador. Bem verdade, Deus é o nosso Consolador. Paulo nos exorta a esse conhecimento e a sentir essa verdade! Deus abarca nossas tristezas porque é certo que não nos quer em situações desagradáveis, salvo se para nos edificar, e é por isso que imputar uma demonização à tristeza está aquém do bom senso.

Já vi pessoas citando Jó 41.22 para condenar a tristeza e/ou aquele que não está sempre alegre em tudo o que faz; nessa passagem vemos, em um texto de difícil interpretação, "no seu pescoço reside a força; diante dele até a tristeza salta de prazer (ou alegria, noutras traduções)". Ocorre que essa passagem recheada de metáforas sobre um duelo entre as criaturas Behemoth (o Bem; hb. Beemote ou Hipopótamo) e Leviatã (o Mal; Crocodilo) não está falando do poder de Deus, mas do ser mítico fenício chamado Leviatã. É óbvio que não desacredito que Deus possa fazer tudo o que quiser, o que incluiria o descrito na passagem, mas aqui ressalta-se o perigo que reside em extirpar trechos das Escrituras de seus respectivos contextos, o que, nesse sentido, foi feito pelos "romanceadores" cristãos, que dizem que sempre há uma alegria inabalável no cristão, nunca tristeza. Fato é que a própria passagem de Jó reconhece a presença da tristeza, que, obviamente, é pressuposta para a existência da felicidade vindoura, inclusive porque ninguém deixa de ser cristão quando a tristeza chega e retorna à cristandade quando a tristeza se vai.

Somos pura imagem e semelhança do Criador, não só na alegria e no amor, mas também na tristeza. Quem pode achar que o próprio Deus não se entristeceu na queda do homem? Quem pode acreditar que o próprio Deus não se entristeceu com a continuação do pecado ao ponto de atingir o ponto da total iniquidade, tal como se narra no livro do Gênesis? Até as menções explícitas na Bíblia sobre o arrependimento de Deus (que, no hebraico, tinha o sentido de 'entristecer-se') se fazem desnecessárias, posto que Deus não é um ser neutro ou indiferente, e certamente não realizaria tais atos com alegria e felicidade no coração. E Jesus... acaso não chorou de tristeza uma, duas, três, várias vezes? Concebido, morto e ressuscitado sem qualquer pecado, não é mencionado em Lucas que Jesus chora de tristeza por Jerusalém ao profetizar sobre a sua conquista pelo Império Romano? Também, no evangelho de João, não chorou Jesus por Lázaro? Por fim, encontra-se uma das mais belas passagens sobre os sentimentos de Jesus no livro de Mateus "e, levando consigo a Pedro e aos dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se. Então, disse-lhes: a minha alma está profundamente triste até à morte; ficai aqui e vigiai comigo". Jesus era experimentado no sofrimento; e em apenas um momento de sua vida o Deus Pai se distanciou dele, por, obviamente, não "poder" conviver com o pecado (nosso) que Jesus carregava na cruz, ou então porque talvez fosse necessário para que Jesus terminasse a tarefa como o Perfeito Sacrifício; em outras palavras, Jesus era/é perfeito e estava constantamente e ininterruptamente na presença de Deus durante a sua vida na Terra... mesmo assim experimentou sentimentos humanos desagradáveis (físicos e psicológicos), incluindo a tristeza. Acaso um cristão que consiga passar por tudo com alegria e afinco irretocável não seria melhor do que Deus, visto que Jesus chorou, entristeceu-se e até hesitou?

Para concluir o tema, e sem que se leve ao pé da letra, importantes são as sábias palavras do Rei Salomão em Eclesiastes 7.2-4: “Melhor é ir à casa onde há luto do que ir a casa onde há banquete; porque naquela se vê o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração. Melhor é a mágoa do que o riso, porque a tristeza do rosto torna melhor o coração. O coração dos sábios está na casa do luto, mas o coração dos tolos na casa da alegria”. Meu conselho não é residir na tristeza, mas tentar compreender o que ela tem a nos dizer. Não é querer ser triste, mas também não é repudiá-la tal como se fosse um pecado intrínseco a si mesma -e não aos motivos, se for o caso. É entender que a tristeza, embora desagradável (ou seja, que não nos agrada), não é necessariamente algo ruim, mas sim a nossa reação a algo ruim que nos acontece, é justamente o nosso alerta, a nossa admoestação mental involuntária que nos aponta que não estamos no caminho certo ou que perdemos algo ou alguém de que muito gostávamos. É viver humanamente, posto que são lindas as lágrimas choradas pelos melhores motivos, ainda que fosse preferível estar o tempo inteiro feliz.

domingo, 9 de agosto de 2009

O Céu está à venda.



"Crianças! Aceitem Jesus Cristo como Seu único Senhor e Salvador e levem de graça um PlayStation 3!"

Absurdo? O absurdo tem muitas faces. Se você só o enxerga quando ele vem em sua forma mais grosseira e evidente, mas não quando vem travestido das inúmeras sutilezas e dos engodos do Inimigo, talvez precise reavaliar suas concepções cristãs. Se promessas de milagres financeiros e proteção contra os tempos de crise são os chamarizes da sua fé, se o seu chamado é a prosperidade material, se você aplaude tal como se estivesse em um show (de horrores) quando o pastor promete carro 0km e esse ou aqueloutro bem, a diferença entre você e o garoto do PlayStation 3 talvez seja que ele é mais esperto ao pegar um "prêmio" muito bem determinado, e antes de você!

"Ah, mas a pessoa começa a ir à igreja por causa de seus problemas e dificuldades, e lá começa a ser tratada". Verdade, tal como para uma criança talvez seja o fim do mundo não poder ter um videogame de última geração em um país de primeiro mundo, mas ainda assim soa um absurdo o chamariz da Igreja Batista de Landover, não? Além disso, nada impede que o garoto, ao ter aceitado Jesus como o único Senhor e Salvador por causa de um videogame, também enxergue, com o tempo, a verdade e se converta verdadeiramente. Mas o cerne da questão é: nem por isso a intenção inicial do garoto estaria adequada, e nem por isso o chamariz da igreja foi o correto.

É óbvio que é muito mais fácil alguém procurar uma igreja se está com uma vida infeliz e problemática do que se estiver com uma vida aparentemente maravilhosa, mas é injustificável que os chamados sejam pautados no prosperismo material ou no medo do Inferno. Não se pode condenar um "alma perdida" por inicialmente ter essa concepção errada (e nem acreditar que ele permanecerá para sempre com tal concepção); mas não se tem visto um esforço para se mudar essa maneira de pensar, pelo contrário, apostando-se nas fraquezas humanas, ensina-se uma antimensagem bíblica (a verdade é que ela leva mais desesperados para a igreja, e, consequentemente, mais grana para os nossos ilibadíssimos e queridos pastores de hoje...).

Veja que não estou dizendo que em hipótese alguma uma pessoa possa pedir bênçãos em áreas financeiras, estou a falar do chamado de tal pessoa, do motivo que se sobressai aos demais, do ponto inicial e do fator equilíbrio que deve permear a fé e o foco espiritual de alguém. Não fosse assim, cairíamos no prosperismo, e o problema dessa concepção prosperista ou baseada no medo do Inferno é a descaracterização da identidade de Deus. É o mundo se infiltrando na Igreja de maneira tão sorrateira e perspicaz, que a maioria dos crentes de hoje já não enxerga se tratar de uma maneira de pensar muito mais mundana do que espiritual. Hoje ainda se pode constatar isso porque ainda temos parâmetros de honestidade e de critério na passagem do Evangelho, mas e daqui décadas, quando se perder o cabresto? A deturpação da Igreja é uma profecia bíblica, e, infelizmente, o "crente" só pensa na Igreja de hoje, e não na Igreja de amanhã. Ninguém quer conter hoje o que daqui alguns anos pode contribuir para uma degradação maior. O crente de hoje, no que tange à não leitura da Bíblia, é só um católico que não crê em santos e em imagens, mas em todo o resto pensa igualmente pequeno (porque é pequeno aquele que não conhece a própria fé), e talvez goste mais ainda de dinheiro.

Foi-se o tempo em que a força motriz da dedicação cristã era o amor à Verdade e ao desejo incondicional de conhecer a Deus só pela simples e pura vontade de sentir Sua presença e de prestar um louvor gratuito a este Infinito Senhor do Universo. Até prega-se o louvor ou até se louva liturgicamente, mas a ladainha da "nata" das igrejas de hoje preponderantemente é o que Deus pode nos dar de bom por aqui (e não aquilo que edifica o espírito), nessa eterna barganha apóstata que impera ao pregar uma "felicidade aziaga" e um "desapego apegado" às coisas mundanas.

Aceitar Jesus deve implicar na mudança de todas as concepções iniciais que sejam incorrespondentes com o Evangelho, e pudera haver menos cristãos egoisticamente deturpados pela falsa lógica prosperista e mais cristãos apaixonados e evangelistas! Mas não, não! Os cristãos que oferecem o que têm sem desejar bens materiais em troca (e, de quebra, espirituais) são chamados de trouxas nos meios televisivos por pastores como Silas Malafaia! O cristão de hoje não tem sequer o direito de buscar se aproximar do ideal de simplicidade e de autoentrega de Jesus. Jesus entregou a própria vida (algo muito mais importante que dinheiro) sem desejar qualquer coisa que fosse em troca, e nós (seres humanos) damos algo infinitamente inferior, porquanto também somos seres inferiores, ansiando comprar o mundo e os céus? Acho que tem algo errado.

Onde está a verdade pela verdade? O amor pelo amor? Por que tem que ser a verdade pela consequência negativa que a sua não aceitação gera (Inferno) ? Por que o amor para colher prosperidade material? Se vamos buscar algo que Deus possa nos dar (e não buscar a Deus só porque Ele é bom, o que eu entendo que seja realmente difícil), por que não os elementos essencialmente espirituais como a temperança, a paz, a caridade, o gozo etc? Por que valer-se de deturpações grosseiras sobre a Párabola do Semeador para dizer que quem dá dinheiro deve querer dinheiro? Por que pastores como Malafaia dão a entender que o cristão deve ser um poço sem fundo de ambições monetárias e que não sê-lo é uma hipocrisia? Sim, pois se alguém é rico e dá de coração sem ansiar enriquecer mais, diga-me, é hipócrita? E se enriquecer mais, e, por isso, passar a dar mais ofertas e um dízimo maior, deve querer ser ainda mais rico? E sendo mais rico, isso não tem fim? Sempre dando mais dinheiro para querer mais dinheiro em forma de bênção, nunca podendo dizer "para mim já basta."? Ora, isso é antibíblico, é anticristo!

É concebível e necessário buscar a paz em Deus, claro. Não somos perfeitos ao ponto de efetuarmos uma autoentrega perfeita tal como Jesus, sem querer nada em troca, mas a paz é algo essencialmente espiritual, e não material, e é algo que vem como consequência lógica de se seguir a verdade. Eu busco a verdade porque ela é a verdade; porque buscar a mentira é viver em mentira. E você, busca-a por quê? Pelo que pode ter ou pelo que pode ser? Porque é prazeroso estar com Deus ou porque é conveniente estar com Deus? Pense nisso.


P.S. Não sei se a imagem é verdadeira ou se é uma sátira ao Protestantismo. O fato é que não importa; é algo apenas ilustrativo e exemplificativo, a ideia é ser mesmo absurdo.

domingo, 25 de janeiro de 2009

"A vós correndo vou, braços sagrados,

Nessa cruz sacrossanta descobertos,

Que, para receber-me, estais abertos

E, por não castigar-me, estais cravados.


A vós, divinos olhos, eclipsados,

De tanto sangue e lágrimas cobertos,

Pois, para perdoar-me, estais despertos

E, por não condenar-me, estais fechados.


A vós, pregados pés, por não deixar-me,

A vós, sangue vertido, para ungir-me,

A vós, cabeça baixa, p’rá chamar-me,


A vós, lado patente, quero unir-me,

A vós, cravos preciosos, quero atar-me,

Para ficar unido, atado e firme."


Gregório de Matos Guerra

sábado, 24 de janeiro de 2009

Onisciência, Livre Arbítrio e Predestinação.

Ainda pequenos, sempre ouvimos falar a respeito das três características basilares que formam a concepção de Deus. São características que, juntas (e apenas juntas), constróem em nossas mentes a noção da perfeição e da completude absoluta, infinita e suprema sobre o que e quem é Deus. A onisciência, a onipresença e a onipotência são atributos intrínsecos a Deus, são princípios doutrinários que, apesar de não se encontrarem taxativamente letrados nas Escrituras, têm nelas suas respectivas descrições conceituadas quase que exaustivamente. Em diversas passagens encontramos versos exaltando os atributos de Deus, atributos que às vezes são incompreensíveis às nossas mentes porque, sem dúvida, não é nada fácil tentar compreender o infinito com uma mente "tão" finita. Contudo, ao se pensar assim, nascem questões como: será que devemos desacreditar de tudo aquilo que não podemos compreender? É-nos lícito deturpar a hermenêutica a fim de, em nossa interpretação, adequar o ininteligível àquilo que mais facilmente pode ser entendido por nós? Interpretações tão delicadas e polêmicas podem ser ensinadas aos outros tão indiscriminadamente como vem ocorrendo?

Certamente você já teve dúvidas sobre o comportamento de Deus, certamente nem tudo na Bíblia é ponto pacífico entre os seus leitores, certamente uma pessoa pode até saber e sentir, mas jamais pode entender como é possível a infinitude de Deus. Afinal, nenhum cristão pode, pois a lógica é clara: é incabível em uma mente limitada o conhecimento pleno sobre o ilimitado. Ainda vemos a verdade de Deus de forma meramente translúcida, descortinando-se continuamente, mas lentamente, diante de nossos olhos. Toda essa questão interpretativa é o que abre precedentes para a criação de tantos ministérios e tantas denominações evangélicas, muito embora a Bíblia, ressalvadas as traduções apóstatas que circulam no mercantilismo gospel, seja a mesma. Hoje, tamanha é a liberdade de pensamento e de expressão, que os ensinamentos de muitas igrejas não são mais vinculados em nada à tradição, e pode haver até muita diferença doutrinária entre os diversos pastores de uma mesma congregação.

Você deve estar perguntando em que ponto quero chegar, e eu tenho certeza de que o título da postagem já te deu um norte. Tive a ideia de escrever este texto quando, certa vez, ouvi de pastores que se Deus soubesse exatamente quando e como um homem irá pecar, este homem estaria predestinado a ser salvo ou ser condenado, e, uma vez predestinado, o Livre Arbítrio não se encaixaria mais ao homem. Para resolver essa aparente contradição, resolveram relativizar a onisciência de Deus, ou seja, dizer que Deus não sabe dos pecados futuros dos homens e que nem tem certeza de quem será salvo ou não; nesse sentido, seria Deus apenas um conhecedor das possibilidades de ações dos homens e das ações naturais que Ele mesmo propicia. Para quem não se aprofundou no assunto, o radical "oni", presente nas três tradicionais características de Deus, vem do latim "omnis" (ou "omne"), e quer dizer "tudo, todo, inteiro", ou seja, a omnisciência é o "saber de tudo" ou "do todo". A partir daí, faz-se necessária uma profunda análise dos sofismas que buscam atingir, ainda que sem a intenção, a omnisciência de Deus, pois só com tal análise é possível entender o porquê de não haver qualquer contradição entre a omnistência e o Livre Arbítrio, e que relativizar o infinito conhecimento de Deus, apesar de soar inofensivo nestes tempos de apostasia, é uma profunda ofensa à sã doutrina bíblica.

Inicialmente é necessário ressaltar que, ao se acreditar que Deus não sabe de tudo do que ainda está por vir em relação às nossas escolhas, a omnisciência é quebrada, enquanto princípio, pois ao se dizer que Deus sabe de tudo ou de todas as coisas, evidentemente devemos inserir em seu conceito todos os eventos futuros. Por quê? Porque se Deus pudesse ter algo acrescentado ao seu saber, não saberia de tudo, e se não soubesse de tudo em relação aos futuros pecados e aos salvos e os não salvos, certamente teria essas coisas a acrescentar em Seu conhecimento. Mas como pode um Ser que sabe tudo ter algo acrescentado ao Seu conhecimento? Isso seria a semente de um paradoxo! Ora, eu sempre aprendi que se algo tem uma única exceção, automaticamente deixa de ser tudo! A verdade é que o conhecimento de Deus é intuitivo e atemporal, mas por quê? Intuitivo porque Deus não pode raciocinar (no sentido literal da palavra), pois se Deus precisasse contar, pensar ou maquinar ideias, certamente seria porque Lhe falta um conhecimento. Isso quer dizer que Deus simplesmente sabe, simultaneamente e intuitivamente, das coisas; e atemporal porque dizer que Deus não sabe com absoluta precisão do futuro é limitá-lo como um "deus pretérito" ou preso ao presente, mas isso soaria contraditório, afinal, aprendemos que Deus é eterno, ou seja, não tem início e nem fim; sendo assim, Deus é SENHOR do tempo, e não dependente dele. Não há qualquer referência bíblica que embase a relativização da omnisciência de Deus.

Aprendemos que Deus pode todas as coisas e que está em todos os lugares. Mas se Deus não pudesse saber de todas as coisas, certamente também não poderia todas as coisas, afinal, não poderia saber de todas as coisas, entende a sutileza? Depois, se Deus não soubesse de todas as coisas, incluindo as futuras, certamente também não estaria em todos os lugares (lembrando que, para Ele, não há tempo, pois o tempo é uma criação, e uma criação não pode abranger o Criador). Assim, relativizar a omnisciência automaticamente relativiza os outros dois princípios. Relativizar tais princípios é negar que Deus é ilimitado e perfeito, pois faltam a Ele complementos e informações que Ele só adquiriria com o decorrer do tempo.

Então dirão "ora, então a predestinação existe!". Mas acaso "destinar" e "saber" são sinônimos? Não, não são. Quando dizemos que Deus sabe quando vamos pecar e como vamos pecar, se seremos salvos ou se não seremos salvos, não quer dizer que fomos destinados, quer dizer que Deus simplesmente sabe que escolhas nós vamos fazer. Se uma pessoa resolve atirar-se de um prédio a fim de estatelar-se ao chão -e, portanto, cometer o pecado do suicídio-, diga, mesmo que Deus saiba previamente o que tal pessoa iria fazer, a escolha não continuou sendo dela? O arbítrio sobre pular ou não ao encontro da morte não foi livremente manifestado pela pessoa que pulou? O que não se pode entender é como funciona tal conhecimento, mas é um entendimento tão ininteligível quanto a eternidade de Deus, ou seja, também não podemos explicar como Deus é eterno, mas sabemos que é, e não devemos deixar de sabê-lo só porque a ideia de eternidade não cabe na nossa cabeça! Aqui cabe um exemplo: suponhamos que eu conhecesse alguém cuja mansidão fosse notória, e, por tamanha mansidão, apenas um único determinado xingamento tiraria essa pessoa do sério. Suponhamos que eu conheça tanto sobre essa pessoa, que só eu sei desse xingamento, e que sei que ele invariavelmente e certamente tiraria essa pessoa do sério. Assim, resolvo xingá-la e, óbvio, a reação dela é a esperada. Agora, responda, saber o que a pessoa decidiria foi o mesmo que predestiná-la? A escolha de reagir assuntosamente e ofensivamente à minha provocação não foi exclusivamente da pessoa ofendida? Veja que o conhecer ou o saber não confrontam com o Livre Arbítrio. Saber o que será decidido por um alguém não é decidir por esse alguém.

Penso que Deus sabe quais os nomes estarão no Livro da Vida, mas não porque os escolheu para tal; Ele sabe porque conhece quais as escolhas que as pessoas farão em vida. Se questionarem "mas por que Deus cria algumas pessoas sabendo que irão para o inferno?", responda que se Deus só permitisse a criação das pessoas que soubesse que iriam para o Céu, não haveria o Livre Arbítrio, aliás, o próprio Inferno seria desnecessário, ou mesmo o próprio Evangelho. Deus permite a criação de pessoas, simplesmente pessoas, e não "pessoas do Céu" e "pessoas do Inferno", pois suas respectivas escolhas e as determinações de seus destinos são criadas/feitas por elas mesmas; Deus não tem parte nelas (embora possa influenciás-la, não faz escolhas por nós), apenas as sabe. Enfatizei o verbo "permitir" porque a criação já foi concluída há milênios, Deus criou Adão e Eva, os homens criados hoje são frutos da orientação de Deus para que o homem se multiplicasse, homens que criam homens, como diz um amigo meu, a partir de Adão começou um ciclo, Deus não planta sementes nas barrigas das mulheres (e não estou falando de milagres, e, muito embora, sejamos sim, genericamente, criaturas de Deus).

Então poderão dizer "então por que Deus oferece dons para pessoas que acabarão por desviar-se?" ou "por que Deus dá chances para pessoas que Ele já sabe que não se salvarão?". Ora, Deus é o Deus dos atos consumados, trabalha com o concreto, não com o abstrato. Se Deus oportuniza pessoas que não aceitarão Jesus é para que ninguém no Dia do Juízo diga "mas eu não tive chances" ou "eu nunca pude ver a verdade porque ela nunca se apresentou a mim". Deus não poderia (no sentido de dever) cobrar algo sobre o que não ofereceu. Se Ele não oferecesse opções também às pessoas que Ele sabe que irão para o Inferno, não estaria dando o Livre Arbítrio a elas, pois não estaria mostrando o bom caminho que poderiam escolher seguir (para haver arbítrio, são necessárias alternativas). A grosso modo pode-se dizer que Deus faz como nós e o nosso tradicional "oferecer por educação", quando nós oferecemos comida a alguém por uma questão de educação, ainda que saibamos que a pessoa não aceitará. É claro que Deus oferece o alimento espiritual não por educação, mas por uma questão de justiça.

O que posso aconselhar é que qualquer pessoa deve reconhecer que não tem a possibilidade de entender como Deus é omnisciente, como Ele pode saber de todas as suas escolhas, passadas, presentes e futuras sem te predestinar, só entenda que ele sabe e que não te predestina. Isso não é uma exortação à ignorância, não é nada como "esqueça o que é difícil de se entender", mas sim um reconhecimento que a Bíblia nos admoesta a respeito em boa hora em Romanos 11.33-34 ao dizer "Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Porque, quem compreendeu a mente do Senhor? Ou quem foi Seu conselheiro?".

Como dizer que Deus não conhece cada detalhe de nossas vidas mesmo antes de nascermos? A tradução Almeia Corrigida Fiel, da Sociedade Bíblica Trinitariana Brasileira, traz, no Salmo 139.16: "Os seus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais em continuação foram formadas, quando nem ainda uma delas havia". Importante salientar que quando Davi, o autor do salmo, diz "estas coisas", pelo contexto dos versos anteriores, está a falar do sentar, do levantar, do deitar, do pensar e de vários outros detalhes da própria vida. E mais importante ainda é estabelecer uma clara diferença para que não se confunda "foram escritas" com a questão da predestinação; ora, o verso diz que as coisas foram escritas, e não que foram destinadas; pode-se dizer que são escritas conforme o que Deus sabe, mas não o que Deus nos destina a viver. Na Bíblia Almeida Revista e Atualizada, da Sociedade Bíblica Brasileira, a tradução é ainda mais clara e não deixa qualquer margem para outras interpretações sobre a omnisciência de Deus, está escrito "Os teus olhos me viram/ a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nenhum deles havia ainda.", se você entender "determinado" como sinônimo de "certo" (e é uma questão hermenêutica, pois, se entendido de outra forma, geraria contradições), não há nenhum erro.

Se as profecias fossem baseadas unicamente no direto agir de Deus para que elas acontecessem (e não na ciência Dele sobre as decisões que os homens fariam no futuro), haveria uma grande contradição com o Livre Arbítrio. Por quê? A Bíblia nos conta que Jesus anunciou aos doze que seria traído, assim, sabia quem O trairia. Também anunciou que Pedro O negaria três vezes, e sabia que seria antes que o galo cantasse (sabia qual seria o pecado, quem pecaria e quando pecaria, com absoluta exatidão!). Note que o pecado de Pedro não fôra planejado e que nem se passava na cabeça dele, nem em seu mais profundo e íntimo pensamento, negar Jesus. Conclui-se que se Jesus não soubesse disso através de Sua omnisciência atemporal e intuitiva, estaria certamente adulterando o Livre Arbítrio, pois, se não tivesse domínio sobre esse tipo de saber (para assim o profetizar), seria necessário predestinar tais homens a pecarem contra Ele, para só assim a crucificação se cumprir. Se Jesus os tivesse predestinado, tais homens não poderiam ser responsabilizados por seus atos. Deus fez as coisas com um perfeito plano, e para que Sua justiça seja feita, o Livre Arbítrio é uma peça fundamental. Existiria alguma outra forma de Jesus saber dos pecados de Pedro e de Judas que não fosse conhecer as decisões futuras deles?

No Velho Testamento, em 1 Reis, Deus anuncia e profetiza que haveria um homem chamado Josias e que esse homem queimaria ossos humanos no altar construído por Jeroboão. Depois de mais de três séculos, em 2 Reis, surge o rei Josias e faz conforme o que havia sido profetizado. Acaso Deus interferiu no livre arbítrio de tal homem ou apenas sabia quais seriam suas atitudes, sejam elas certas ou erradas, mesmo antes de tal homem nascer?

Posso até dizer que há versos na Bíblia que abrem margens para uma discussão sobre a Predestinação¹. Todavia, devemos antes entender que a omnisciência e o Livre Arbítrio são princípios irrefutáveis e que só funcionam por inteiro. Não há como refutá-los e nem como relativizá-los justamente porque não é possível Deus ser meio omnipresente ou o homem ter meio Livre Arbítrio. "O todo sem a parte não é todo". Assim, tais margens para se discutir a Predestinação devem seguir outra linha hermenêutica para que possamos desconstruir as aparentes contradições bíblicas. Buscar uma linha interpretativa que tente remendar algo em detrimento da integridade de outro princípio só causará uma necessidade futura de se enxertar um outro remendo no novo buraco.

O ideal grego de destino transcorreu pelas páginas dos séculos e chegou até nós, mas a realidade é que não há Moiras postas a coser os fios do destino dos homens! Não há que se confundir rifle de caçar rolinha com bife de caçarolinha: não existe uma contradição entre o Livre Arbítrio e a omnisciência e que estaria a gerar a famigerada Predestinação. Aqui nós provamos que saber e destinar não são a mesma coisa, e que as profecias seriam falsas ou, no mínimo, contra o Livre Arbítrio, se Deus não tivesse um pleno e absoluto conhecimento sobre o futuro de cada homem da Terra, em cada detalhe e minúcia. Nosso Deus é o descrito em Isaías, o Deus que "põe em marcha cada estrela do seu exército celestial (algo em torno de cem trilhões de bilhões, diz a limitada ciência humana), e a todas chama pelo nome. Tão grande é o seu poder e tão intensa a sua força, que nenhuma delas deixa de comparecer!", o Deus que não pode ser surpreendido e nem desafiado, o Deus que conhece, desde a eternidade, todos os corações dos homens que virão depois de nós e dos homens que virão depois deles, o Deus que sabia, mesmo antes da criação da Terra ou do Universo, se você aguentaria ler este texto enorme até o final, ou não.

¹Predestinar cf eleger, escolher: Rm 8.29; Ef 1.5; Ef 1.11. A questão da Predestinação descrita da Bíblia mereceria uma postagem específica. Mas o que pode ser adiantado é que ela está inserida em um contexto bem específico e que trata de um outro tipo de destino, o destino à imagem e semelhança de Deus daqueles que são justificados e o destino em Cristo (que é algo universal). Não se trata, portanto, de uma predestinação "salvo" e "não salvo", que é a tratada aqui.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Somos por Deus

Só Deus sabe como foi difícil pensar em um nome para este blog (semanas, eu diria), especialmente porque meu intuito primário era o de pensar em um nome que refletisse perfeitamente tudo o que seria abordado aqui. Entretanto, e depois de várias tentativas, cheguei exatamente ao lugar onde queria: fora do clichê e das falsas erudições de quem prioriza a forma em detrimento da semântica das coisas. O nome Somos por Deus é ambíguo; mas, diferentemente da maioria das ambiguidades, não traz um caráter dualista à nossa interpretação; trata-se, pois, da manifestação de duas grandes verdades às quais estamos submetidos enquanto seres humanos. A primeira delas diz respeito a como foi nos foi possível nossa própria existência, ou seja, de onde nós viemos. A segunda delas diz respeito ao porquê de existirmos, ou seja, com qual finalidade existimos. O fato é que não é fácil de explicar, mas as palavras "somos por" podem ser interpretadas de duas formas distintas. Na primeira, o verbo "ser" tem o sentido do verbo "existir" no mais profundo literalismo possível, ou seja, ao pé da letra; trata-se de uma afirmação lógica baseada na fé e na razão para explicar nossa gênese -ou a primeira verdade: Deus nos criou, então nossa existência só foi possível por causa Dele; em outras palavras, somos o que somos porque assim nos fez Deus, então somos por Deus. Na segunda, o verbo ainda figura no sentido de "existir", mas perde seu caráter literal (não deixando de ser tão ou mais importante, contudo) e passa a ter um caráter simbólico que representa um dos pilares cristãos de obediência e de louvor ao nome do Senhor; assim, a preposição "por" ganha um novo sentido, o mesmo sentido da preposição "para"; ou seja, somos para/por Deus e por isso devemos voltar nossos olhos a Ele, tanto em nosso Princípio quanto em nosso Fim (enquanto mortais, obviamente), lembrando-nos de que nosso Senhor é o Alfa e o Ômega -a segunda verdade. A conclusão -que nada mais é do que a simples união desses dois sentidos- é que estamos aqui porque Deus nos criou, e nos criou por amor, com a finalidade de que o adorássemos e de que cumpríssemos a tarefa missionária cristã em espírito e em verdade. Sei que é algo que parece muito óbvio, mas isso vem caindo em esquecimento na mente dos cristãos de hoje em dia: a Igreja tem ganhado em quantidade, mas tem perdido em qualidade. Então lembremo-nos sempre da Verdade-Mor e do Eixo-Motriz de nossa existência, para que não nos percamos pelo caminho. Se Somos por Deus, e ao quadrado, temos o importante papel não só de reconhecer Seu infinito poder ou de clamar e pedir por coisas. É ainda de tamanha responsabilidade e importância (uma das poucas extremamente prazerosas, eu diria) louvá-lo e levar a Sua palavra a quem ainda não pôde ouvi-la, resgatando e salvaguardando os valores cristãos que vem sendo suprimidos pela assimilação que a Igreja atual faz do mundo secular. Assim, e somente assim, a Igreja não perecerá na mornidão e nem fenecerá diante dos tempos modernos.

De coração,
Fernando.