quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Discorrendo sobre a tristeza...

Em um mundo onde há tanto sofrimento é desnecessária qualquer espécie de apologia à tristeza. A felicidade e a alegria exigem incentivos e mantenimentos, mas a tristeza, para existir, só precisa de um coração machucado. Quem nunca se machucou ou nunca se machucará? Quem pode ignorar a importância da tristeza? Afinal, nos momentos tristes nos tornamos muito mais propensos a um processo de reflexão e de autodescoberta do que nos momentos de felicidade. Não quero trazer ideiais "novaerinos" de complemento de forças dualísticas, tampouco dizer que as pessoas devem se entregar à tristeza. Digo, porém, que o homem que nunca conheceu a tristeza (se fosse possível) foi o homem que jamais pôde compreender a imensidão da felicidade, especialmente a felicidade em Deus.

O cristão que se entristecer não precisa e nem deve se achar distante de Deus. O mal não pode edificar diretamente, mas a tristeza pode, então como ela deve ser necessariamente um mal? Devemos pensar é no porquê de estarmos tristes e com que intensidade estamos tristes, a questão também é, principalmente, se somos tristes ou se estamos tristes. Deve-se partir do princípio de que nem tudo o que é desagradável é ruim ou mau. Deve-se entender que é a tristeza que nos remete à esperança de que Deus pode nos alegrar! Alegrar como? Através da consolação. Na segunda epístola de Paulo aos Coríntios, apesar de o cerne da carta se tratar da apresentação pessoal de suas credenciais diante do conservadorismo rabínico, vemos Paulo falar muito sobre Deus como Consolador. Bem verdade, Deus é o nosso Consolador. Paulo nos exorta a esse conhecimento e a sentir essa verdade! Deus abarca nossas tristezas porque é certo que não nos quer em situações desagradáveis, salvo se para nos edificar, e é por isso que imputar uma demonização à tristeza está aquém do bom senso.

Já vi pessoas citando Jó 41.22 para condenar a tristeza e/ou aquele que não está sempre alegre em tudo o que faz; nessa passagem vemos, em um texto de difícil interpretação, "no seu pescoço reside a força; diante dele até a tristeza salta de prazer (ou alegria, noutras traduções)". Ocorre que essa passagem recheada de metáforas sobre um duelo entre as criaturas Behemoth (o Bem; hb. Beemote ou Hipopótamo) e Leviatã (o Mal; Crocodilo) não está falando do poder de Deus, mas do ser mítico fenício chamado Leviatã. É óbvio que não desacredito que Deus possa fazer tudo o que quiser, o que incluiria o descrito na passagem, mas aqui ressalta-se o perigo que reside em extirpar trechos das Escrituras de seus respectivos contextos, o que, nesse sentido, foi feito pelos "romanceadores" cristãos, que dizem que sempre há uma alegria inabalável no cristão, nunca tristeza. Fato é que a própria passagem de Jó reconhece a presença da tristeza, que, obviamente, é pressuposta para a existência da felicidade vindoura, inclusive porque ninguém deixa de ser cristão quando a tristeza chega e retorna à cristandade quando a tristeza se vai.

Somos pura imagem e semelhança do Criador, não só na alegria e no amor, mas também na tristeza. Quem pode achar que o próprio Deus não se entristeceu na queda do homem? Quem pode acreditar que o próprio Deus não se entristeceu com a continuação do pecado ao ponto de atingir o ponto da total iniquidade, tal como se narra no livro do Gênesis? Até as menções explícitas na Bíblia sobre o arrependimento de Deus (que, no hebraico, tinha o sentido de 'entristecer-se') se fazem desnecessárias, posto que Deus não é um ser neutro ou indiferente, e certamente não realizaria tais atos com alegria e felicidade no coração. E Jesus... acaso não chorou de tristeza uma, duas, três, várias vezes? Concebido, morto e ressuscitado sem qualquer pecado, não é mencionado em Lucas que Jesus chora de tristeza por Jerusalém ao profetizar sobre a sua conquista pelo Império Romano? Também, no evangelho de João, não chorou Jesus por Lázaro? Por fim, encontra-se uma das mais belas passagens sobre os sentimentos de Jesus no livro de Mateus "e, levando consigo a Pedro e aos dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se. Então, disse-lhes: a minha alma está profundamente triste até à morte; ficai aqui e vigiai comigo". Jesus era experimentado no sofrimento; e em apenas um momento de sua vida o Deus Pai se distanciou dele, por, obviamente, não "poder" conviver com o pecado (nosso) que Jesus carregava na cruz, ou então porque talvez fosse necessário para que Jesus terminasse a tarefa como o Perfeito Sacrifício; em outras palavras, Jesus era/é perfeito e estava constantamente e ininterruptamente na presença de Deus durante a sua vida na Terra... mesmo assim experimentou sentimentos humanos desagradáveis (físicos e psicológicos), incluindo a tristeza. Acaso um cristão que consiga passar por tudo com alegria e afinco irretocável não seria melhor do que Deus, visto que Jesus chorou, entristeceu-se e até hesitou?

Para concluir o tema, e sem que se leve ao pé da letra, importantes são as sábias palavras do Rei Salomão em Eclesiastes 7.2-4: “Melhor é ir à casa onde há luto do que ir a casa onde há banquete; porque naquela se vê o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração. Melhor é a mágoa do que o riso, porque a tristeza do rosto torna melhor o coração. O coração dos sábios está na casa do luto, mas o coração dos tolos na casa da alegria”. Meu conselho não é residir na tristeza, mas tentar compreender o que ela tem a nos dizer. Não é querer ser triste, mas também não é repudiá-la tal como se fosse um pecado intrínseco a si mesma -e não aos motivos, se for o caso. É entender que a tristeza, embora desagradável (ou seja, que não nos agrada), não é necessariamente algo ruim, mas sim a nossa reação a algo ruim que nos acontece, é justamente o nosso alerta, a nossa admoestação mental involuntária que nos aponta que não estamos no caminho certo ou que perdemos algo ou alguém de que muito gostávamos. É viver humanamente, posto que são lindas as lágrimas choradas pelos melhores motivos, ainda que fosse preferível estar o tempo inteiro feliz.

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